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Um toque de vida: renascer após o câncer de mama

Para fechar o mês de outubro e a nossa campanha do Outubro Rosa com chave de ouro, trouxemos a história de Petronila da Rocha, a doce Mãezinha, que nos deu uma lição de vida e contou um pouco de sua história.
Por: Caroline Melo 31/10/2016 - 10:16 - Atualizado em: 15/03/2017 - 10:33
Foto: Brenda Alcântara
Foto: Brenda Alcântara
Por: Caroline Melo e Taísa Silveira
 
No fim de uma tarde quente, num conjunto de casas de um bairro tranquilo, a risada alta e musical é o som que mais se destaca. Depois de 81 anos, seu sorriso e sua energia continuam sendo a marca de uma mulher que nunca desistiu de celebrar a vida. Uma marca muito mais forte que a cicatriz no lugar onde esteve seu seio, retirado há 24 anos após um câncer de mama raro.
 
Mãezinha nos recebeu, duas jornalistas e uma fotógrafa, em sua casa. Brincalhona, queria que tivéssemos chegado mais cedo – tínhamos interrompido um cochilo. A casa pequena, cheia de bibelôs, porta-retratos, e pequenas decorações, é acolhedora mesmo naquele calor. Ela sentou no sofá, apontou nossos lugares e, com sua conversa leve, tentava criar um clima aconchegante. Quando tudo estava organizado, a lente apontada para o seu rosto e o silêncio antes da primeira pergunta surgiu, ela sorriu novamente.
 
Petronila Ferreira da Rocha, conhecida como Mãezinha por família e amigos e como Petró pelo pessoal do Hospital do Câncer, não hesitou para contar sobre a história do seu câncer. Por causa de uma coceirinha na mama esquerda, ela começou uma investigação dos sintomas que a levou a três médicos diferentes. Ninguém que tenha ouvido falar da situação pode duvidar que cada visita aos consultórios, em busca de uma explicação para a crosta que evoluía em seu mamilo, era animada. Até hoje Mãezinha faz piada da preocupação da filha, que chorava e se desesperava, e da descrença dos seus vizinhos acerca de sua cirurgia. Todos achavam que ela morreria.
 
Quando relembrou o dia em que recebeu o resultado positivo para câncer, o tom ficou mais sério, quase etéreo. Mãezinha teve um tipo raro de câncer: Doença de Paget na mama, que se concentra no mamilo. “Eu lembro tanto desse dia!”, conta, buscando lá atrás, memórias de cerca de um quarto de século. “Deu uma bronquinha”, comunicou o médico. “Bronquinha não, doutor. Deu broncona, uma bronca grande. Eu sei que o senhor vai me operar e vai tirar o meu peito”, relembra.
 
“Não botei uma lágrima, nadinha”, afirma Mãezinha, satisfeita. Sua fé, erguida junto ao tratamento da doença, é demonstrada nas paredes e nos móveis dos cômodos através de terços, imagens e orações. Também está presente nos seus olhos quando conta que, desde que descobriu que estava doente, jamais se deixou abalar. Assim que descobriu que passaria pelo tratamento contra o câncer, saiu contando a todos que conhecia no bairro. Para aqueles que pensavam que ela não resistiria ao câncer, brincava e sorria: "Se eu nasci para morrer, eu morro”.
 
Mas ela (sobre)viveu. E sua disposição continua viva. Os olhos pequeninos brilham ao relembrar que o tratamento passou, ela resistiu e passou por muitos lugares do Brasil. Mãezinha puxou um enorme álbum de fotografias e passou a apontar as imagens de sua viagens incontáveis, assim como suas fantasias (teve roupa de cangaceira, teve foto de matuta) e encontros com artistas. Mostrou balés, danças de quadrilha. Mostrou uma vida inteira que aconteceu depois que entrou para o grupo de dança do Espaço Renascer, no Hospital do Câncer.
 
Mãezinha abre espaço na própria vida para ajudar quem necessita de um testemunho ou um suporte. Os amigos veem nela alguém que pode servir de âncora para os problemas de saúde ou para a falta de esperança. Com um sorriso e uma palavra certeira, a senhora de cabelos brancos oferece apoio a quem precisa, com a firmeza de quem sabe do que fala e de quem já viveu muito.
 
Já perto de voltarmos à redação, com o sol caindo rápido e a luz se perdendo, nossa fotógrafa começou a pedir que ela se ajustasse para a câmera para alguns registros finais: "Eu queria que a senhora ficasse..." e foi interrompida por um "Queria, não. Quer!". Com a assertividade de quem já aprendeu e tem mais ainda a ensinar, Mãezinha usa verbo no presente do indicativo: sem espaço para dúvidas e incertezas. A correção vem acompanhada por um sorriso e uma risada que são sua marca. Uma característica única de quem sabe que neste mundo não nos é permitido que sejamos frouxos e que o riso se perca.
 
"Mãezinha, eu quero que a senhora olhe para a câmera", pediu a fotógrafa, absorvendo a lição. Ela se virou e sorriu. 
 
Confira a entrevista com Mãezinha logo abaixo:
 
 

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