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No Dia da Gentileza, o maior desafio é enxergar o outro

Em meio ao caos e imediatismo, esta ação diária parece um exercício que foge a realidade de muitos
Por: 12/11/2018 - 09:33 - Atualizado em: 13/11/2018 - 08:52

*por Elaine Guimarães

Nesta terça-feira (13) é comemorado o Dia Mundial da Gentileza. No dicionário, gentileza é "qualidade ou caráter de gentil", assim como, "ação nobre, distinta ou amável". Nos versos de Marisa Monte, a gentileza virou poesia. Nas ruas, ela virou artigo de luxo. Em meio ao caos e imediatismo, o olhar e enxergar o outro diariamente parece um exercício que foge a realidade de muitos.

Em uma breve caminhada pela área central do Recife, encontramos histórias de pessoas que, muitas vezes, convivem com a falta de empatia e invisibilidade. Homens e mulheres que diante da cegueira dos cidadãos de bem, misturam-se às construções e paisagens da cidade.

Gentileza Gera Gentileza

Instituída durante a conferência ‘World Kindness Movement’ realizada em Tóquio, no Japão, em 1996. O dia corresponde a movimentos para promover e inspirar atitudes mais gentis no mundo e ganha força a partir dos anos 2000. No Brasil, a gentileza  é comemorada em 29 de maio, uma referência à morte de José Datrino, o Profeta Gentileza. José dedicou boa parte da vida a propagar mensagens otimistas por espaços públicos do Rio de Janeiro e a distribuir rosas para quem o encontrava.

Cortesia nem sempre reconhecida

Há 12 anos, José Antônio, 67 anos, comercializa sombrinhas de frevo na Praça do Marco Zero -  Júlio Gomes/LeiaJá Imagens

Praça do Marco Zero, área central do Recife. Em um dos pontos mais movimentados da capital pernambucana e comercializando a simbologia máxima do Frevo, tombado como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade pela Unesco, está José Antônio, 67 anos. Do contato diário com transeuntes locais e turistas por doze anos, ele coleciona histórias.

Como manda o protocolo, José tenta agradar a clientela com cortesias, simpatia e descontos. No entanto, o comerciante ressalta que nem sempre essas atitudes são reconhecidas. “Eu já vi de um tudo por aqui. Tem gente que fala, olha o produto, agradece, pede para tirar foto, mesmo não levando a sombrinha de frevo, e eu tento deixar todo mundo à vontade”, observa. Ele comenta que não é necessário o cliente comprar o produto, mas que um ‘obrigado’ faz toda diferença.

Com certo pesar, o comerciante relembra uma situação envolvendo um casal de turistas. “Uma vez, um casal queria que eu fizesse três sombrinhas pelo valor de R$ 20 [cada produto custa R$ 10]. Como o movimento estava fraco, resolvi dar esse desconto. O homem me alertou que estava com uma nota de R$100 e perguntou se eu teria troco. Eu só estava com R$ 50 e pedi a uma colega R$ 30 para complementar o troco. Dei os R$ 80 e as sombrinhas, mas eles foram embora sem pagar e só percebi isso depois. Tive prejuízo e ainda fiquei devendo dinheiro”, relembra.

“Água é a R$ 2”

Os amigos Osvaldo Menezes, 26,  Luíz Armando, 21, e JC, 12, dividem as angústias do preconceito, da ausência de empatia e atuação do poder público -  Júlio Gomes/LeiaJá Imagens

Alguns anos de diferença separam os amigos de profissão Osvaldo Menezes, 26,  Luíz Armando, 21, e JC, 12. Com a famosa ‘lábia’ recifense, eles vendem água em frente ao Centro de Artesanato de Pernambuco, no bairro do Recife Antigo, dividindo as angústias do preconceito, da ausência de empatia e atuação do poder público. “A gente fica por aqui das 8h até às 17h vendendo água”, explica o mais novo do trio, conhecido também como Mascote.

Questionados sobre a relação com os clientes, os ambulantes falam que nem sempre é positiva. “A gente oferece o produto, leva até o cliente, mas alguns nem olham para a gente ou apenas viram a cara”, conta Luíz.

Mesmo com pouca bagagem de vida, JC relata que durante a abordagem dos turistas, alguns costumam esconder as bolsas e objetos. “Já teve um dia que uma ‘gringa’ chegou a ameaçar chamar a polícia”, comenta o menino. Osvaldo tenta amenizar a fala do amigo e explica que essa reação dos turistas tem relação com a insegurança. “Eles estão em um lugar que não é o deles e também tem a questão dos assaltos por aqui”, justifica.

Além disso, eles ainda precisam driblar a fiscalização, que não permite a venda de produtos por ambulantes sem cadastro junto à Prefeitura do Recife. “A gente não pode ficar parado, nem usar os carrinhos para carregar o isopor. Se alguém da fiscalização vê a gente vendendo, levam a mercadoria. Eles não querem saber se isso é o nosso sustento, apenas levam”, diz Luíz.

Gentileza jogada no chão

Os varredores Jorge Apolônio e Luciana de Arruda zelam pelos pontos turísticos da cidade - Júlio Gomes/LeiaJá Imagens

Nas primeiras horas da manhã, os varredores Jorge Apolônio e Luciana de Arruda zelam pelos pontos turísticos da cidade. Com, respectivamente, 10 e 5 anos no ofício, os profissionais afirmam que o zelo não é compartilhado por aqueles que usufruem desses espaços. “Mesmo vendo a gente fazendo a limpeza da rua, as pessoas não param de jogar o lixo no chão. Muitos dizem que se não fazem isso, a gente fica sem emprego”, expõe Luciana. O discurso é endossado pelo amigo de profissão. “Às vezes, nem dão bom dia e se a gente pede para não jogar o lixo na rua, a gente escuta que é para manter a gente trabalhando”, reforça Jorge.

O varredor também relata que, como o ponto de apoio é distante, precisa contar com a gentileza de comerciantes e moradores para beber água. “ Aqui pelo centro da cidade, as pessoas estão mais acostumadas com a nossa presença diária e quando pedimos um copo de água, recebemos. Mas, em bairros como Boa Viagem [Zona Sul do Recife] esse pedido nem sempre é atendido. Parece que quanto mais dinheiro tem, menos se ajuda”, conclui.

Apenas o essencial

Há cinco anos, Marcone Costa fixa morada pelas ruas das área central do Recife-  Júlio Gomes/LeiaJá Imagens

A infância difícil e problemas com os pais fizeram Marcone Costa, 24 anos, ‘fixar’ morada pelas ruas do Recife. Com folhas de papelão, com as quais improvisa uma cama, e uma mochila, que já dá sinais do tempo, na qual carrega o essencial, ele comenta que evita contato com outras pessoas em situação de rua ou transeuntes. “Eu costumo ficar sozinho, não gosto de andar em grupo. Pego minhas coisas e fico no meu canto. “Eu tento sempre me manter limpo, tomado banho e com os dentes escovados. Muitas vezes, as pessoas acham que estou pedindo comida para enganar”, afirma.

Marcone relata que roupas e objetos recebidos chegam, muitas vezes, sem ele pedir. “Mais cedo, passaram dois homens, pai e filho, e deixaram essas coisas para mim, mas nem tudo eu vou usar. Quero só o básico, não preciso de muito. Já separei o que realmente vou usar e o restante vou deixar por ali [apontando para um ponto do Marco Zero] para outra pessoa”, conta. Atualmente, Marcone tenta recuperar os documentos e, assim, ir em busca de emprego. “Esses homens, que deixaram essa coisas aqui mais cedo, disseram que vão me ajudar com isso”, garante Marcone, demonstrando que, em meio a tanta falta de gentileza, ainda há uma fagulha de esperança.

Conhece alguma história de gentileza? Conta para a gente nos comentários!

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