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A mudança social que vem da sala de aula: o que a gente aprende e o que os professores nos ensinam

Por: Caroline Melo 15/10/2016 - 00:00 - Atualizado em: 18/10/2016 - 17:28
Eu, aluna ainda, recebi a missão de fazer uma matéria sobre o Dia dos Professores, comemorado no último 15 de outubro e em todos os outros desde 1947, o mesmo dia em que foi assinado o Decreto Imperial de D. Pedro I que instalou o Ensino Elementar no Brasil em 1827. Para me ajudar com isso, resolvi conversar com alguns professores da UNINASSAU, pessoas com quem acabei - qual a surpresa? - aprendendo mais do que fui buscar. Conheçam comigo um pouco das histórias de Marco Gameiro, Andréa Gomes e Rosalina Freitas
 
O professor de todo mundo
 
A minha ligação foi atendida por um "olá" jovial e risonho. Professor Marco Gameiro estava em casa corrigindo umas provas na hora, mas mesmo assim parou para falar comigo. Não demorou muito para começar a conhecer o professor. 
 
Marco Gameiro se formou em Engenharia Elétrica pela UFPE, tem doutorado em Física pela USP e dois pós-doutorados, um pela Universidade da Pensilvânia e outro pela Universidade da Califórnia. Mais que tudo isso, tem muita história. "Eu leciono desde os 27 anos em universidades, mas antes dei aulas em colégios de Recife. Depois que me formei em Engenharia Elétrica, fui para São Paulo. Voltei para Recife. Ganhei uma bolsa e fui para os Estados Unidos", conta. "Ensinei muito cálculo, física, álgebra linear, geometria analítica", me contou, resumindo rapidamente seu currículo extenso. Disse-lhe que era uma vida e tanto e ouvi como resposta "Tem a idade também né? Estou com 73 anos, poderia ter ficado jogando dominó", riu. 
 
 
Mas ele não ficaria jogando dominó, não. Marco ensina há mais de 50 anos, o que não é pouco. "Passei a vida ensinando e continuo porque eu gosto. Já faz 20 longos anos que me aposentei. Me perguntam quando é que eu vou parar de ensinar e eu respondo 'Rapaz, ainda posso falar, não digo besteira... então continuo'", brinca Marco. 
 
O professor também conta que sua intenção enquanto ainda estudava era fazer pesquisa, mas, com o amadurecimento, foi percebendo a importância do seu papel ao colaborar na formação dos mais jovens. Concluído seu curso e já com um bom tempo ensinando em instituições no estado, foi convidado para lecionar na Maurício de Nassau. "Entrei para ensinar matemática aplicada no curso de biomedicina”, relembra. 
Marco ainda me contou que, um tempo depois, foi aberto o curso de engenharia de telecomunicações, definitivamente uma entrada para sua área principal. Junto com engenharia ambiental, o professor viu surgir os primeiros cursos do núcleo de engenharia no que hoje é a UNINASSAU, um dos maiores centros acadêmicos do Brasil. 
 
Ele, que está dando aulas de matérias de exatas à neta, que vai fazer ENEM novamente este ano, não cansa de ensinar e dividir tudo que aprendeu lecionando e na vida. "O meu maior compromisso é com o futuro dos jovens e do país em que vivemos. Fui para os EUA com 31 anos e poderia ter ficado lá. Mas eu sou de Quipapá, sabe onde é? Perto de Garanhuns. Vou fazer o quê em São Paulo? Vou ficar comendo hambúrguer e tomando coca-cola com os americanos? Não, o Brasil tem seus problemas, mas vai superar. Olho para os meus netos e digo que vai melhorar. Eu acredito profundamente na capacidade dos jovens de mudar o mundo. E eu tenho que acreditar."
 
A professora desde berço
 
Costuma-se dizer que muita coisa é perdida numa conversa à distância, que falta emoção e contato. Felizmente, e por causa da conversa com Andréa Gomes, professora da área de saúde, é possível discordar. O aprendizado, desta vez, foi que a paixão nem precisa ser vista, pode ser transmitida em qualquer meio de comunicação. 
 
"Eu sou professora desde que me formei em ciências biológicas. Não exerci outra profissão dentro da minha área", começou Andréa, empolgada, logo que me apresentei e expliquei o motivo da ligação. Andréa é mestra e doutora em microbiologia, e tem no currículo um pós-doutorado também. "Tem uma história que eu adoro contar aos meus alunos", retoma a professora. "Aos sete anos, ganhei um quadro de presente de Natal, um  quadro-negro daqueles antigos. Era época de férias e eu me lembro muito bem que colocava meus irmãos e amigos para estudar. Eles não queriam saber de escola durante as férias, mas eu era a professora. É a lembrança mais antiga que tenho de ensinar." 
 
A vontade de lecionar continuou por muito tempo. Foi bacharel em Ciências Biológicas, mas conseguiu autorização para licenciatura por excelência no curso. Assim que se formou, Andréa prestou concurso e, aprovada, foi dar aulas em escolas públicas. Para os servidores do Estado existe um período de dois anos de estágio probatório para quem inicia um cargo, que serve para aferir a aptidão do profissional. A professora se manteve ali por cinco anos. "Findo o meu estágio depois de dois anos, tive uma reunião de fim de ano. A diretora anunciou: 'vamos fazer duas promoções hoje, uma por tempo de serviço e outra por mérito'. Uma foi a minha amiga, a outra fui eu. Eu tive esse reconhecimento desde aquela época e isso era muito gratificante."
 
"Entreguei o meu cargo porque sempre tive um sonho de ensinar em universidade", continua a contar a história. Ela contou que continuou a estudar por querer dar aulas em ensino superior, mas antes disso, foi trabalhar na indústria farmacêutica em São Paulo. "Passei três meses e todos os dias ia trabalhar muito triste, um pouco deprimida", comenta Andréa. Depois desse período, resolveu mudar de novo. "Ainda lembro da data: 25 de novembro de 2009. Fiz a seleção para professora de microbiologia na Nassau em segredo, não contei a ninguém na empresa. Lá eu ganharia o triplo do meu salário inicial como professora, mas ainda assim pedi demissão". Por capacidade e apreço, a professora recebeu uma bolsa para especialização da Nassau e foi passar um semestre estudando em Portugal, na Universidade de Coimbra, para um pós-doutorado. Ela escolheu estudar a área de Educação. "Ser professor é a coisa mais importante do mundo. É como diz aquele velho jargão, que sem professor não há qualquer profissional. Nós existimos para criar um parâmetro a ser seguido e um vínculo entre o aluno e sua futura profissão."
 
Para explicar essa paixão e dedicação, Andréa Gomes pediu para que escrevesse, letra por letra: "Não há outro lugar no mundo em que eu seja mais feliz que em sala de aula. É onde me realizo como pessoa, mulher, cidadã. É onde realizo o meu melhor". Infelizmente não posso colocar com a precisão necessária nesta matéria o tom emocionado com que passou a mensagem, ou o som da voz tremendo ligeiramente. Mas fica o registro de uma paixão que dura a vida inteira. 
 
A professora e o sacerdócio
 
"O que quer saber sobre mim? Que eu já digo que sou muito apaixonada pelo ofício!", começou a professora Rosalina Freitas, professora de Direito Processual Civil na na UNINASSAU - Centro Universitário Maurício de Nassau. Bom, para uma conversa iniciada assim, não esperaria nada além de ouvir elogios rasgados à profissão. Descobri em pouco tempo de conversa que ela leciona desde 2007, está cursando um doutorado e ainda trabalha no poder judiciário estadual há 14 anos. Apesar de tão ativa e com um leque tão grande de atividades, lecionar recebe um destaque acima de qualquer coisa.
 
"Desde criança eu tenho esse desejo de atuar no ofício de docente, que eu chamo de sacerdócio. Meus pais contam que desde pequena eu queria ser professora", relembrou Rosalina. Nesse momento, nossa ligação caiu e ela não ouviu quando foi questionada sobre o sacerdócio. Na maior calma, com a atenção de quem está acostumada a aprender e ensinar, ela atendeu novamente, ouviu e explicou que é "porque exige muita dedicação e uma verdadeira entrega àquela missão. Para ser um sacerdócio, tem que ter amor"
 
E então entendi a sacerdotisa em potencial que vive na professora. "Sacerdote" vem das palavras latinas sacerdos e otis e significa "representante do sagrado". Para ela, educação é mesmo algo sagrado, então não há qualquer equívoco aqui.
Rosalina acredita que os professores não têm todo poder de informação, mas têm o poder de transformar. "Ali no ambiente acadêmico tem muita troca. O professor deixa muito, mas também leva muito. Essa troca me deixa com a certeza de que a sala de aula é um lugar em que se aprende demais. Todo mundo tem experiência para trocar", expôs a docente com assertividade.
 
Por essa força tão grande de mudança, alguns dos fatos mais marcantes em sua trajetória como professora acabam sendo reencontrar antigos alunos que são hoje profissionais da área de direito... e da área de educação também. Ela já teve oportunidade de dividir palestras e aulas com pessoas que aprenderam com ela e têm destaque no trabalho atualmente e se anima por isso. "É muito gratificante. A gente se sente muito feliz, sente que os esforços estão rendendo frutos. É bom encontrar um colega que abraçou o ofício e tem carinho pela docência sabendo que você contribuiu de alguma forma para esse carinho", confessa. 
 
Até chegar às salas de aulas, Rosalina passou por experiências enquanto estava na graduação e depois um longo período de atuação no poder judiciário - o que, segundo ela, até hoje é uma vantagem por valorizar muito mais o que leva para a sala. Somados a essa experiência, o mestrado e o doutorado, a professora se prepara para uma carreira mais longa ainda lecionando. "Eu quero ficar velhinha na docência, nunca fico parada nesse canto", diz. "Tenho a chance de aliar profissão com a vocação. É na sala de aula que eu me sinto realmente feliz. Sinto que estou exatamente no lugar certo."
 
Diante de tantos depoimentos emocionantes, não tem como deixar de parabenizar todos os profissionais da área de Educação pelo seu dia e pelo papel desempenhado em nossa sociedade. Feliz Dia do Professor a todos os docentes do Brasil!

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