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II Congresso Multidisciplinar de Saúde aborda temática de suicídio

Entenda a partir da série 13 Reasons Why o que deve ou não ser feito ao representar um suicídio
Por: Henrique Nascimento 24/08/2017 - 12:37 - Atualizado em: 24/08/2017 - 12:40
Clay Jensen (Dylan Minnette) e Hannah Baker (Katherine Langford), protagonistas da série 13 Reasons Why/Netflix(Divulgação)
Clay Jensen (Dylan Minnette) e Hannah Baker (Katherine Langford), protagonistas da série 13 Reasons Why/Netflix(Divulgação)
No Brasil, ocorrem cerca de 27 suicídios por dia. De acordo com dados do Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, só ano de 2013, 10.080 pessoas tiveram o suicídio registrado como causa da morte. O número pode ser ainda maior. Devido ao tabu religioso e moral ligado ao ato, alguns casos não chegam a ser registrados.
 
Retratar suicídio na mídia é uma tarefa delicada. Recentemente o tema veio à tona por conta do sucesso da série 13 Reasons Why, conhecida no Brasil como Os 13 Porquês. O enredo conta a história de Hannah Baker, uma menina que antes de cometer suicídio acaba deixando treze fitas cassetes informando as razões que a levaram a morte para as pessoas que influenciaram na sua decisão.
 
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A preocupação com a forma que o suicídio é retratado não é aleatória. Após o lançamento e popularização do livro “Os sofrimentos do Jovem Wether” de Goethe em 1774, uma grande quantidade de mortes foram computadas emulando o suicídio exposto no livro. 
 
Por conta desse dado e de pesquisas científicas posteriores feitas em diversos países, ficou visível que há uma relação não simplista entre o suicídio de uma personalidade ou personagem famoso e o aumento de suicídios de pessoas de mesma idade ou gênero.
 
O outro lado da moeda: Efeito Papageno
Da mesma forma que existem os malefícios de uma abordagem mal feita, há também os benefícios de uma abordagem preventiva da mídia. O “Efeito Papageno” tem esse nome em referência ao personagem Papageno da Ópera “O Flautista Mágico” de Mozart que tenta se enforcar e é convencido por três espíritos que é melhor continuar vivendo.
 
Suicídio, mídia e prevenção
Durante o II Congresso Multidisciplinar de Saúde promovido pela UNINASSAU em Fortaleza, o tema “Suicídio, mídia e prevenção” será tratado em uma das conferências. As psicólogas Selena Mesquita, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre valorização da vida e prevenção do suicídio, e Deyseane Maria, membra do Instituto de Psicologia Humanista e Fenomenológica do Ceará (IPhe-CE), estarão apresentando o encontro.
 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) possui um manual de orientação para profissionais da mídia que mostra como o suicídio deve ser retratado. Confira 13 orientações indispensáveis que são dadas nesse material e entenda como algumas delas se aplicam em 13 Reasons Why.
 
Netflix/Divulgação1 Trabalhar em conjunto com autoridades de saúde na apresentação dos fatos
É importante que a imprensa atenda às recomendações dadas pelos órgãos de saúde responsáveis por tratar do suicídio para evitar possíveis problemas sociais. O mesmo é válido para o ramo do entretenimento, por exemplo, durante o planejamento e gravações da série 13 Reasons Why existia uma equipe formada por psicólogos e psiquiatras para acompanhar o processo.
 
2 O suicídio nunca é bem-sucedido
Ao referir-se ao suicídio é preciso tratá-lo como “suicídio consumado”, não como “bem-sucedido”. A ideia de um ato bem-sucedido pode levar a glamourização do fato  e incentivar que outras pessoas propensas a tirar a própria vida vejam naquilo o exemplo de algo que deu bons resultados. 
 
3 Nem tudo precisa ser exposto
Outra recomendação é a de só expor aquilo que é de extrema importância a respeito do ocorrido. As pessoas
próximas ao falecido podem ser afetadas pela divulgação indevida de detalhes.
 
4 Existe alternativa ao suicídio
O ato suicida não deve ser tratado como a única solução para o problema vivenciado por quem o cometeu. A valorização da vida deve vir em primeiro lugar. Para isso, é preciso que sempre seja mostrado que apesar do suicídio existir ele não é uma saída adequada. A protagonista Hannah, em um dos momentos da série procura auxílio, mas acaba concluindo por si só que a ajuda não é satisfatória. Esse tipo de abordagem é perigosa por deixar implícito que nada pode ser suficiente para ajudar alguém que planeja suicidar-se. Indicando a morte como única solução.
 
5 Indicar serviços de apoio
Seja qual for o meio em que o suicídio estiver sendo representado é importante divulgar contatos de serviços que podem ajudar pessoas que estão pensando em cometer o ato. O CVV (Centro de Valorização da Vida) é um desses espaços que contam com voluntários 24 horas para ajudar pessoas que estão passando por momentos dolorosos. O contato pode ser feito por telefone através do número 141 ou no site da organização através do chat, e-mail ou Skype.
 
6 Mostrar indicadores de risco e sinais de alerta sobre comportamento suicida
Outra coisa importante é alertar a sociedade quanto aos possíveis comportamentos que podem ser desenvolvidos por pessoas que pretendem se suicidar. Alguns do sinais podem ser: frases de alarme como “eu quero sumir”; mudanças drásticas de conduta; comportamento depressivo, não é regra, mas é comum que pessoas que planejam o suicídio possam ter alguma condição psicológica.
 
Além disso, em materiais que retratem o suicídio, é indispensável que tenham alertas indicando que podem haver gatilhos para consumação do ato suicida, como há nos últimos episódios de 13 Reasons Why.
 
7 Não existe epidemia de suicídio
Altos números de tentativas ou de suicídios consumados não podem ser tratados como epidemia. O termo epidemia faz alusão a doenças que são transmitidas em larga escala, o suicídio não é uma doença. Mesmo o efeito Werther não pode ser considerado uma epidemia.
 
8 Nada de fotos ou divulgação de cartas suicidas
Entre as críticas feitas por especialistas a série Os 13 Porquês está o fato de que todas as fitas juntas representam uma grande carta suicida. Uma das orientações da OMS é que cartas suicidas ou fotos da pessoa que faleceu não sejam divulgados, justamente para que o efeito Wether não possa vir a ser desencadeado. 
 
9 Não divulgar detalhes específicos do método utilizado
Muitos detalhes ou descrição minuciosa de como o ato foi consumado pode auxiliar a desencadear o efeito Wether. Em 13 Reasons Why, uma das principais críticas é feita a cena em que é mostrado o passo a passo da preparação e consumação do suicídio de Hannah.
 
10 Não fornecer explicações simplistas
A consumação do suicídio nunca pode ser atribuída apenas a um fator ou ser banalizada. Pelo contrário, é preciso enxergar o suicídio como algo que é consequência de múltiplos fatores, entre eles os sociais e psicológicos. A busca por uma causa ou motivação única não levará a nada.
 
Apesar de vários problemas na retratação do suicídio na história de Hannah, esse é um ponto em que a série se mostra condizente com a OMS. A protagonista não chega ao estágio final de forma direta, mas é intercalada por uma série de eventos que a afetam.
 
11 Sem sensacionalismo ou glorificação do ato
Uma ocorrência suicida não deve ser a manchete principal de um jornal ou receber destaque elevado com muitos detalhes do ocorrido. É preciso dar o espaço para falar do caso, mas não chamar atenção desnecessária ou tratar como um ato corajoso digno de admiração.
 
12 Não usar estereótipos religiosos ou culturais
Também é importante não relacionar casos de suicídio a estereótipos culturais ou religiosos como camicases ou extremistas muçulmanos, por exemplo. Esse tipo de associação pode ser etnocêntrica com caráter xenófobo ao não considerar as diferentes motivações sociais e culturais envolvidas.
 
13 Não atribuir culpas
Apesar das fitas fazerem os demais personagens de Os 13 Porquês refletirem sobre seus  atos, esse viés do enredo acaba incentivando o espectador a buscar um culpado para o incidente final da vida de Hannah. No cotidiano real é importante que isso não seja feito. O suicídio nunca tem um culpado e esse tipo de direcionamento pode fazer com que as pessoas próximas ao falecido sofram ainda mais.
 

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