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Falta de cuidado com os museus pode causar mais tragédias como o incêndio do Museu Nacional

Os equipamentos culturais sofrem com a falta de recursos para manutenção da estrutura e preservação dos acervos
Marcele Lima Por: 19/12/2019 - 12:01 - Atualizado em: 19/12/2019 - 12:02
Museu Nacional/Creative Commons
Museu Nacional/Creative Commons

Entre os dias 2 e 3 de setembro de 2018, o Brasil viu parte de sua história ser destruída pelo incêndio no Museu Nacional, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Considerado o maior museu natural e antropológico das Américas, o local foi a moradia da Família Real Portuguesa, fundado pelo Rei Dom João VI em 1818. Antes conhecido como Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, abrigava mais de 20 milhões de itens, destruídos pelo fogo que consumiu os ambientes. 

No acervo, estavam livros raros, documentos, objetivos pertencentes à realeza, aos antigos povos indígenas, múmias e artefatos egípcios e greco-romanas da coleção de Dom Pedro I e da Imperatriz Tereza Cristina, além do mais antigo fóssil  humano encontrado no Brasil, conhecido como Luíza. Cerca de pouco mais de dois meses depois do incêndio, pesquisadores anunciaram que fragmentos pertencentes ao crânio de Luíza haviam sido resgatados dos escombros e passam agora por etapas de reconstrução, que devem encerrar em 2020.

Para o professor de história José Carlos Mardock,  a perda é irreparável, visto a quantidade de coisas que simplesmente deixaram de existir, historicamente falando. “Ninguém pode mensurar o prejuízo porque a tabela de valor que é utilizada ali é gigante. Até porque, infelizmente, no museu carioca, não houve a preocupação de catalogar cada objeto especificamente. Uma perda irreparável, que nem nesta geração e nem nas próximas gerações, ou séculos, a humanidade pode se aproximar da ideia da perda que se teve”, lamentou o docente. 

A falta de cuidados com os museus no Brasil pode fazer com que mais tragédias como esta ocorram porque muita gente não entende a importância que estes espaços têm. Os museus passam por dificuldades financeiras, estruturais e de falta de pessoal especializado nos cuidados com as peças antigas e catalogação exatas dos materiais. Em nota enviada à imprensa em 2018, o Conselho Federal de Museologia (COFEM) afirmou que a verba destinada aos museus é precária e não garante os quesitos considerados fundamentais para preservação dos acervos. 

Profissionais que comemoram seu dia em 18 de dezembro, os museólogos são fundamentais para a manutenção do serviço prestado pelos espaços, a grande maioria públicos, que de acordo com Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) somam mais de 3.879. Segundo o professor José Carlos Mardock, eles significam uma ferramenta vital para a manutenção da cultura mundial e o ‘pontapé’ inicial para que a humanidade conheça suas origens. “Os museus vão ser ponto de partida para que outras pessoas possam conhecer suas raízes, sua cultura, sua diversidade, seu colorido. Você tem um museu com uma organização de período a período e toda essa meticulosidade, toda essa gama de detalhes permite que primeiramente o ser humano se reconheça e em segundo plano o indivíduo de cada continente, de cada país, possa também perceber sua identidade, daí a importância vital dos museus  na organização da sociedade humana”, diz o docente. 

O Museu Nacional passa agora pela fase de restauração. Em agosto deste ano a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quem administra o local, assinou junto com as Organizações das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Fundação Vale, um protocolo de intenções para firmar um novo modelo de governança para recuperação do espaço, que permite que haja um ambiente adequado para atração de investimentos privados. Mais de 16 milhões já foram disponibilizados pelo Ministério da Educação (MEC) para estabilização do prédio e a construção da cobertura.  

Além disso, a Alemanha fez uma doação de aproximadamente R$ 1 milhão para ajudar nos reparos e a organização SOS Amigos do Museu conseguiu um montante de R$ 350 mil. A Câmara dos Deputados também aprovou uma emenda parlamentar de R$55 milhões, dos quais R$ 43 milhões já foram liberados e aguardam licitação para UFRJ. A previsão é que a reabertura do Museu Nacional ocorra em 2022. 

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