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Capoeira: um jogo de resistência e cultura

No Dia do Capoeirista, lembrado neste sábado (3), saiba como esses guardiões evoluem, ao mesmo que preservam esse legado até os tempos atuais
Rebeca Ângelis Por: 03/08/2019 - 08:47 - Atualizado em: 05/08/2019 - 08:59
"Capoeira é muito mais que uma luta, capoeira é ritmo, é música, é malandragem, é poesia, é um jogo, é religião”, já dizia Mestre Pastinha - um dos primeiros guardiões da tradição praticada no Brasil. E, seguindo seus ensinamentos, muitos adeptos continuam mantendo-na como forma de ideologia, a exemplo do grupo de Capoeira Angola N’golo N’guzo, situado na cidade Alta de Olinda. 
É noite de segunda-feira e, aos poucos, o salão começa a se encher de alunos para a aula do Mestre Marcelo Baia - professor de capoeira há 40 anos. A turma, que outrora era formada apenas por homens, hoje se contrapõe ao antigo cenário e agrega mulheres e crianças, todos juntos, formando uma roda em que todos são iguais. 
 
Antes mesmo da aula propriamente dita iniciar, membros do grupo já começam a praticar outra aprendizagem: a de cidadania. Os primeiros que chegam se dividem na tarefa de varrer, organizar e manter o espaço limpo para mais um dia de “treino”. Eis que começa a aula. Nas lições, todos aprendem sobre ginga, maneira correta de se posicionar e tocar o berimbau. Capoeirista aprende, sobretudo, a dialogar com o próprio corpo, por meio dos reflexos ou da própria mandinga executada nos movimentos do iaô, Rabo de arraia, Biqueira, Tesoura, Rolê e várias outras defesas diante do adversário.
 
Todos aprendem a jogar de forma ímpar, mas em unanimidade, respeitando os princípios de ser cidadão em coletivo. “A capoeira vem da arte, de onde vem a ancestralidade. Vem da fé de acreditar em você e em algo mais, na união de pessoas. Na espiritualidade que se pode transformar as coisas.”, explica Marcelo. Confira o vídeo com entrevista exclusiva sobre o assunto:
Luta e enfrentamentos
Desde seu início, a capoeira que existia originalmente no Brasil com referências africanas, era do tipo de Angola. Passou por várias lutas, principalmente, de 1890 a 1937, quando foi considerada crime previsto pelo Código Penal da República. Na época, para sobreviver ao ambiente hostil da sociedade, os alunos a praticavam em escolas clandestinas nos subúrbios.
 
No intuito de torná-la permitida, o angoleiro (nome dado ao praticante da Capoeira Angola) Mestre Bimba criou, em 1932, uma nova capoeira: a Regional. Fugindo de qualquer pista que lembrasse a origem “marginalizada”, uniu  técnicas de artes marciais como o boxe e jiu-jítsu e denominou como um método de ensino em academias.
 
A nova modalidade eliminava algumas posturas, mudava alguns movimentos e exigia alguns critérios para os integrantes como higiene, uniforme e até boas notas no colégio. Foi então, o período que a classe média branca começou a se interessar. Essa adaptação fez uma divisão entre os angoleiros e regionais, que criticam-se mutuamente embora se respeitem. Na missão de guardiões, os primeiros defendem a preservação da essência capoeirista, enquanto que os mais novos endossam que a capoeira precisa evoluir. 
De lá para cá, essa técnica corporal se expandiu e já ganhou adeptos em várias partes do mundo. Chegando ainda a ser reconhecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro.
 
Um jogo de resistência da cultura negra
 
Símbolo da resistência, desde quando era vista como uma prática marginalizada, a capoeira passa até hoje por obstáculos que desafiam sua essência. Isso porque nem todos os adeptos se consideram atletas e a tem como modalidade esportiva, mas sim como um símbolo e expressão da cultura negra, empregado desde a época da escravidão.
 
“Ê,  Zum zum zum, zum zum zum...Capoeira mata um”, já dizia  a letra do cantor Jackson do Pandeiro, mas a realidade para muitos é que querem matá-la, destruiindo todo seu contexto. Entre as novas práticas, encontra-se a inserção da capoeira Gospel, criada por cristãos que propõem adaptar novas canções que não use nomes em menção a religiões matriz africanas como o candomblé e umbanda.
 
A adaptação é vista por muitos praticantes como sinônimo de apropriação cultural que impõe apagar a raiz do negro, bem como, seus símbolos sagrados, mantidos hoje desde sua origem. “É uma tentativa de assassinar a gênese da capoeira. Como é que uma religião surge para matar a origem da própria cultura?”, questiona a Mestra Mônica Santana, também integrante do grupo N’golo N’ guzu.
“Capoeira é filosofia de vida, é o legado dos nossos ancestrais. Tentar mudar ou adaptar isso a outros modos, é esquecer da história de lutas e enfrentamentos que nossos ancestrais passaram”, ressalta Marcelo.

Capoeira feminista

“Tem mulher que joga melhor do que muito homem capoeirista”. Seja nas ruas ou dentro das rodas, ouvir comentários como esse e achar que se trata de uma reprodução natural ainda é uma problemática comum entre os “capoeiras”. Justamente porque, o feminismo na capoeira combate as desigualdades e as comparações à força, do estilo masculino de estar em uma roda. Lutar contra o machismo é promover a igualdade de gênero, sem medir qualidades específicas das mulheres. 
 
Essa compreensão de luta tem se tornado cada vez mais assídua entre elas para defender seus espaços. Sobretudo na capoeira, que, durante muito tempo, foi predominantemente um ambiente masculino. “Sofri com o machismo nas rodas, desde muito cedo. Até mesmo pela minha mãe que me proibia e permitia apenas que meu irmão fosse aos treinos. Na época questionei, mas por ser impedida de ir, só comecei a praticar com frequência a capoeira, anos mais tarde”, explica Mônica, angoleira desde 1985, que já tem o título de Mestra e contra-mestra.  
 
“Nem mesmo o título de contra-mestra que me foi dado eu aceitava, achava que aquilo não era para mim. Quando quiseram me dar um título, eu dizia: ‘Não, eu não tenho capacidade!’ Ou seja, é tão imposto pra gente que, enquanto mulher não somos capazes, que a gente termina acreditando. Mas não, somos capazes, sim, de ir muito além!”, endossa.
 
Embora seja mais fácil encontrar registros na história da capoeira apenas de homens, poucas mas (marcantes) mulheres fizeram história, desde que tudo, inclusive, sua presença era proibida. Poucos são os locais que as citam e mergulham em suas histórias, mas seus nomes marcantes fortalecem e encorajam as mulheres atuais ainda mais no legado feminista nas gerações futuras. Confira em nosso Infográfico:
 

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